A saúde mental, sob a ótica da Psicologia Transpessoal
- Zilda Moretti
- há 7 dias
- 5 min de leitura

A saúde mental, sob a ótica da Psicologia Transpessoal, deixa de ser apenas a ausência de transtornos para se tornar o florescimento do ser.
É o entendimento de que não somos apenas um amontoado de sinapses ou traumas biográficos, mas uma consciência vasta habitando uma experiência humana.
Nesta perspectiva, o sofrimento não é um erro de percurso, mas muitas vezes um chamado da alma. A depressão pode ser lida como um convite ao recolhimento e à reavaliação de propósitos; a ansiedade, como um sinal de que perdemos o compasso com o agora. Cuidar da mente, portanto, é um ato de reconexão.
O SAGRADO NO COTIDIANO
Ter saúde mental é permitir que o ego — essa nossa identidade social e limitada — se torne poroso o suficiente para que a luz da nossa essência o atravesse.
É entender que nossas feridas não são apenas cicatrizes de dor, mas "portais" por onde a nossa humanidade mais profunda se manifesta.
Onde o ritmo do mundo tenta nos fragmentar, a psicologia transpessoal nos lembra de buscar a integração através de três grandes temas que propomos a seguir:
1. Acolher a sombra para que ela pare de projetar medos no mundo.
A psicologia transpessoal nos ensina que a sombra não é um erro de fabricação da nossa psique, mas sim o porão onde guardamos tudo aquilo que, por medo ou vergonha, não ousamos ser. No entanto, o que não é iluminado pela consciência não desaparece; apenas se transforma em projeção.
Quando nos recusamos a olhar para as nossas próprias profundezas, o mundo ao redor se torna um espelho distorcido. Passamos a enxergar nos outros a agressividade que reprimimos, o egoísmo que não admitimos ou a inveja que escondemos sob o tapete da moralidade. O medo que sentimos do "fora" é, muitas vezes, o grito do que está trancado "dentro".
O Ato de Acolher
Acolher a sombra sob a ótica transpessoal exige uma coragem compassiva. Não se trata de julgar o que encontramos na escuridão, mas de reconhecer que cada fragmento sombrio guarda uma centelha de energia vital que foi sequestrada.
A Sombra como Aliada: Quando abraçamos nossa sombra, ela perde o poder de nos assustar. A raiva reprimida, quando acolhida, pode se transformar em assertividade e força para agir.
O Fim das Projeções: Ao tomarmos posse de nossas "partes feias", o mundo deixa de ser um lugar ameaçador. Paramos de lutar contra fantasmas externos porque fizemos as pazes com os nossos próprios abismos.
A Integração da Luz e da Escuridão
A saúde da alma não nasce da perfeição, mas da totalidade. No horizonte em que todos nós estamos inseridos as polaridades tentam nos dividir e o trabalho transpessoal nos mostra que o caminho é o de unificação. É entender que só quem conhece suas próprias sombras é capaz de transitar pelo mundo sem projetar seus medos no próximo.
Acolher a sombra é, em última instância, um ato de amor universal. É libertar o outro da obrigação de carregar o que é nosso e, finalmente, caminhar com passos leves, pois quem não teme a própria escuridão não teme a luz de ninguém.
2. Honrar o corpo como o templo que ancora nossas percepções espirituais
Sob a ótica da Psicologia Transpessoal, o corpo não é uma "casca" ou um fardo que a alma carrega; ele é o espaço sagrado onde a transcendência acontece.
Em um mundo cada vez mais virtualizado, honrar o corpo torna-se o ato mais radical de espiritualidade prática.
O Templo da Presença
Muitas vezes, buscamos o sagrado nas alturas, nas filosofias complexas ou em estados alterados de consciência, esquecendo que é o sistema nervoso que processa a iluminação.
O corpo é o ancoradouro. Sem ele, a percepção espiritual seria apenas abstração. É através dos sentidos — do toque, da respiração, do ritmo do coração — que o Espírito ganha forma e expressão na matéria.
Honrar o corpo significa reconhecer que cada célula é impregnada de inteligência cósmica. Quando silenciamos para ouvir a "biopsicologia" do ser, percebemos que o corpo nunca mente: ele sinaliza nossas verdades mais profundas através de tensões, relaxamentos e intuições viscerais.
A Espiritualidade presentificada no Corpo
Nesta perspectiva, cuidar da saúde física é um rito de devoção. Não por estética, mas por reverência à vida. Quando cuidamos do nosso templo:
· Ancoramos a intuição: Um corpo equilibrado é uma antena mais limpa para captar frequências sutis.
· Integramos o Ser: Deixamos de ser mentes flutuantes para nos tornarmos seres íntegros, onde o "acima" e o "abaixo" se encontram na respiração.
· Manifestamos o Propósito: É através das mãos e dos pés que a nossa missão de alma ganha o mundo.
O Sagrado no Agora
Honrar o corpo é aceitar a nossa finitude para experimentar o que há de infinito em nós.
É entender que a pele é o limite que nos define, mas também o ponto de contato que nos une ao Todo.
Ao tratar o corpo com gentileza, permitimos que a alma se sinta segura para habitar plenamente a existência terrena.
3. Silenciar o ruído externo para escutar a intuição, que é a linguagem da nossa saúde primordial
Na perspectiva da Psicologia Transpessoal, a saúde mental não é algo que construímos do zero, mas algo que relembramos. Ela é o nosso estado original, a nossa saúde primordial.
No entanto, vivemos submersos em uma polifonia de ruídos: as expectativas sociais, o bombardeio digital, as vozes do passado e a ansiedade pelo futuro. Esse barulho externo cria uma estática que nos impede de sintonizar a frequência da nossa sabedoria interna.
A Intuição como Bússola do Ser
A intuição, para a transpessoalidade, não é um palpite místico ou uma coincidência. Ela é a linguagem da alma — um conhecimento direto que não passa pelos filtros limitantes da lógica racional. Quando silenciamos o mundo, permitimos que essa voz sutil emerja. Ela é a manifestação da nossa "unidade" com o Todo, sinalizando caminhos que a mente analítica, em sua miopia, não consegue enxergar.
O Silêncio como Espaço de Cura
Silenciar não é apenas ausência de som; é a criação de um espaço sagrado. É o ato de desligar os aparelhos e as opiniões alheias para ouvir a própria respiração e os impulsos do Eu Superior. Nesse vazio fértil, a intuição atua como uma medicina natural:
-Ela nos devolve a autonomia: Paramos de buscar respostas fora e passamos a confiar na autoridade interna.
-Ela regula o sistema: Ao ouvir a intuição, alinhamos nossas ações aos nossos valores, reduzindo o estresse e a fragmentação psíquica.
-Ela revela a Saúde Primordial: Lembramos que, por trás das nuvens do ruído mental, o céu da consciência permanece sempre limpo e sereno.
O Retorno para Casa
Cultivar o silêncio é um ato de resistência e de amor-próprio. Ao darmos volume à nossa intuição, reencontramos o ritmo natural da vida.
A saúde primordial floresce quando paramos de tentar "resolver" a vida apenas com o intelecto e nos entregamos à orientação sábia que flui do nosso núcleo transpessoal.
No silêncio, deixamos de sobreviver ao barulho para começarmos a viver a partir da nossa essência.
Estar mentalmente saudável é, em última análise, sentir-se em casa dentro de si mesmo, reconhecendo que fazemos parte de algo muito maior.
É a paz de quem compreende que, para além das tempestades emocionais, existe um oceano de tranquilidade que nunca deixa de ser profun





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